Perspectivas

Ontem conversava com uma amiga sobre as emoções relacionadas com a infertilidade. Falo abertamente sobre a infertilidade sempre que posso, virtualmente é ainda mais fácil do que cara-a-cara. Mas é algo que requer treino e tento dar sempre atenção à vozinha que me espicaça cá dentro… “diz! diz!”

Com pezinhos de lã, a minha amiga disse-me que se eu não quisesse falar não havia problema. Mas eu quis. E quero. Faz sempre bem falar, faz ainda melhor sentir que conseguimos ajudar alguém com as nossas palavras. Perguntava-me ela como é que eu geria o sentimento de nunca conseguir vir a ser mãe. Pergunta de difícil resposta.

Esta amiga já é mãe. Por motivos de saúde, os médicos desaconselham uma nova gravidez. Explicou-me que tinha passado uma gravidez tão complicada que queria muito engravidar de novo para ter uma experiência positiva.

Como? Será que li bem?

O ser humano é maravilhoso. Tantas pessoas que conheço que não querem repetir determinadas experiências porque o passado as marcou negativamente. E encontro alguém que me diz precisamente o contrário.

No mínimo, inspirador.

A tua cara não (me) é estranha

Houve uma altura, durante a infertilidade, em que comecei a ler sobre psicologia evolucionista. Eu já devia saber que boa coisa não iria encontrar. Na altura, fazia investigação em comportamento do consumidor e havia alguns estudos feitos dentro desta corrente que suscitaram o meu interesse. Não encontrei nada sobre infertilidade, mas a verdade é que a explicação evolucionista mais óbvia seria: tu não és forte o suficiente para procriar. A natureza é sábia, baixa a bolinha e arruma as botas.

Depois, seguindo a lógica dos pavões, comecei a especular. Será que só os mais bonitos conseguem reproduzir-se? Será que os homens machos, de barba rija e pêlo no peito, serão os que mais facilmente espalham a semente? Será que as mulheres infertéis são todas umas tábuas-rasas, pouco femininas, andróginas, e com pêlo na venta? Seria tudo uma questão hormonal que se espelha no corpo das pessoas?

Encontrar um grupo no facebook de “amigas especiais”, conhecer os rostos da infertilidade, fez-me perceber que as pessoas infertéis são iguais às outras todas. Não há traço físico que as distinga. Homens lusitanos que sofrem de azoospermia e mulheres com ancas de parideira que não conseguem engravidar.

Encontrar a normalidade fez-me sentir mais normal e, portanto, mas acompanhada. Porque a infertilidade também traz pensamentos e conjecturas parvas, e eu não ia ser excepção.

Será?

Há cerca de um ano atrás respondia ao convite da mãe ervilhinha para deixar o meu testemunho. Ele acabava assim: “Se é difícil? Como eu nunca imaginei que pudesse ser! Se me apetece desistir? Muitas vezes sim… Então como é que se arranja forças para continuar? Tendo esperança e acreditando que o melhor ainda está para vir… E está mesmo!”

Será? Será que o melhor ainda está para vir? Nunca como hoje me custa tanto acreditar… porque hoje infertilidade rima com imprevisibilidade! E por ser imprevisível, por ser incerto, hoje dói… Em 2011 vivi dos melhores e o pior momento da nossa vida: a alegria de ter conseguido engravidar numa primeira ICSI onde foi puncionado apenas um ovócito, e a enorme tristeza de termos perdido o nosso filho no final do primeiro trimestre de gravidez, sem que nada o fizesse prever… Assim, de repente, o coração do nosso filho tinha deixado de bater.

Como é que se consegue continuar a acreditar depois disto? Honestamente não sei bem explicar… Valeu-me o imenso amor que me une ao pai do meu filho e o apoio de alguns amigos, uns reais, outros virtuais. Ajudou-me saber que não estava sozinha na minha dor, assim como não estive nos momentos de felicidade. Ainda hoje estou convicta que que foi uma grande partida que o universo nos pregou! É duro para qualquer pai, mas tem um toque refinado e acrescido de malvadeza para aqueles que se cruzam com a infertilidade pelo caminho.

Depois de sarar física e psicologicamente, decidimos arrumar o medo e a angústia numa prateleira bem alta do nosso armário_coração e fomos à luta! O SNS esperava por nós e digo-vos, não foi bonito! Comecei a perceber que me enquadrava numa pequena (não tão pequena como seria desejável) minoria de pacientes que o SNS denomina de más respondedoras, que mais não são que mulheres que produzem um numero reduzido de ovócitos e que, ainda assim, precisam de maiores doses de medicação.

Senti na pele que para os hospitais públicos mais do que seres humanos que têm um problema de saúde e precisam de ajuda, mais do que isso, somos números. Valemos pelo número de ovócitos que conseguimos produzir! Foi isso que eu senti quando me cancelaram o meu primeiro tratamento num hospital público com apenas 5 dias de estimulação (em doses menores do que as utilizadas no tratamento anterior – sim, eu apresentei todo o protocolo feito anteriormente e a resposta foi um singelo “aqui não fazemos assim”) e APENAS dois folículos… Apenas dois folículos quando eu já tinha engravidado puncionando apenas um… mas isso o que é que importava? Nada! E de nada importou quando informei que tinha conseguido engravidar de novo após esse cancelamento! Foi um milagre disseram eles. E eu acredito que sim. Tinha-me saído o euromilhões pela segunda vez! Afinal era possível! Os números deles estavam contra mim, mas tinha acontecido!!!

Acreditei até às sete semanas e, de novo, o pesadelo da perda gestacional. Desta vez o luto foi diferente. Acontecer uma vez podia aceitar, duas já me puseram a pensar se não haveria mais alguma surpresa… E havia! E assim chegaram as trombofilias ao meu dicionário! E uma nova tentativa de tratamento, que fez tábua rasa dos anteriores e um novo cancelamento! Mais tarde, a informação via mensagem telefónica que, depois de reunidas as mais altas patentes na matéria (?!), o que o SNS estava disposto a fazer por mim passava por ciclos naturais… Era altura de mudar de rumo. Bem o pensei melhor o fiz…

O final de 2012 chegou e com ele forças renovadas. Depois de reunidas as verbas necessárias, o início de mais uma batalha aproximava-se e 2013 começou inundado de esperança e de sonhos. Foi um tratamento longo e muito penoso, mas a verdade é que consegui transferir um blastocisto, um embrião de topo! Ia ser desta! Tinha chegado a nossa hora! Mas isso não aconteceu… Foi duro, muito duro, mais um luto de nada! Sem mais verbas para novos tratamentos… Mais uma vez, não sei como, mas ao fim de alguns dias senti que era tempo de arregaçar as mangas e continuar a lutar e decidimos tentar outras experiências no SNS.

Bem, assim resumidamente, entre a consulta num serviço que entretanto iria ser extinto e integrado no serviço de onde tinha “saído”, e a consulta num outro serviço, por isto ou por aquilo, entre 2013 e o início de 2014 fiquei de novo com uma mão cheia de nadas, e na cabeça de novo a convicção de que sou um número, apenas isso, e um número daqueles não muito bons e pelo qual nenhum serviço público está disposto a acreditar.

O que restava agora? Rumar ao porto de abrigo de sempre! Afinal depois de um ano de lutas e sacrifícios, tínhamos de novo as verbas necessárias para mais um tratamento. E neste momento só isso interessava! Foi com esta confiança e com esta fé quase inabalável que partimos para mais esta aventura. Mas fomos de novo cruelmente afastados do sonho de sermos pais! Depois de uns dias em que tudo correu às mil maravilhas, na hora H, mais uma pedra no caminho que inviabilizou a colheita de ovócitos! Regressamos a casa com a mesma mão… cheia de nadas, feridos de morte nos nossos sonhos e nas nossas convicções.

Li e reli o primeiro testemunho que aqui deixei há mais de um ano atrás e aquelas palavras parecem estar tão longe de mim. Sei que sou perseverante, não viro a cara à luta! Sei que sou resiliente. Os trambolhões têm sido muitos e repetidos… e de uma forma ou de outra acabamos sempre por nos levantar… Também sei que tudo isto há-de passar. Não sei quando nem como, apenas sei que não quero viver assim nesta angústia e neste sofrimento. Não me quero esquecer, como muitas vezes acontece, que eu já sou feliz. E talvez seja bom começar a equacionar que por vezes, por muito que se faça, por muita vontade que tenhamos, as coisas não acontecem como nós gostaríamos que acontecessem. Porque há coisas que nós não controlamos. Todos sabemos, médicos e pacientes, que ninguém pode prometer ou garantir nada a ninguém. Essa é que é a verdade! “Estás muito frágil ainda!” ou “Dá tempo ao tempo”, é o que os mais próximos me dizem. Pode ser que sim. Pode ser que a angústia e a dor de, nos últimos anos, as coisas não terem corrido como eu desejava me estejam a tapar os olhos, e não me deixem ver que hoje, lá fora, finalmente o dia é de primavera. Deve ser isso… não sei!

Raios partam a infertilidade que me tira o optimismo e o sorriso dos lábios! Estou a fazer um esforço, mas não deixo de pensar nas palavras de à um ano atrás, já repetidas no início deste texto: “Se é difícil? Como eu nunca imaginei que pudesse ser! Se me apetece desistir? Muitas vezes sim… Então como é que se arranja forças para continuar? Tendo esperança e acreditando que o melhor ainda está para vir… E está mesmo!” Será?

Ficas-te por aqui?

Foi a pergunta que me fizeram ontem, numa reunião de família. Ou “então e a menina, ainda vem?” Já não me atrapalho, muitas vezes brinco dizendo “se demorar tanto como este demorou!…” Sei que a probabilidade é baixa, dado os problemas de infertilidade e de estar a amamentar. Temos os nossos embriões à espera, a idade não é um problema, tenho 1 filho. O tema “infertilidade” já não me sufoca. E queremos muito que a família cresça, para além de todos os motivos e mais alguns, porque gostava muito que o Ervilhito tivesse irmãos também.

Não tenho pressa. Vivi, durante muito tempo, com pressa para tudo. Agora estou a usufruir a viagem e tudo o que ela tem para me dar. Para uma nova TEC, terei que esperar pelo desmame, que é algo que não pretendo forçar. Que venha o 2º filho quando o 1º estiver um pouco mais autónomo. E assim tudo faz sentido, tudo se conjuga. Da forma mais natural possível.

Partilha

Durante os anos da infertilidade, depois de ter saído do armário, procurei sempre conversar com pessoas que eu sabia à priori terem passado por algo semelhante. Sempre foi muito importante falar sobre o assunto, tentar sentir-me compreendida. Encontrar alguém, familiar ou amigo, que tivesse passado pela infertilidade era uma bênção, porque sentia que falávamos a mesma língua.

Hoje, há distância de mais de 2 anos, não é tanto sobre infertilidade que falo no meu quotidiano. Depois da gravidez e de ter nascido o Ervilhito, as minhas tentativas de ajuda vão para as grávidas mas, sobretudo, para as mães que desejam amamentar mas não encontram o acompanhamento merecido. Mas a história da infertilidade continua cá. O blogue, apesar de adormecido, continua cá também. Serve mais para ajudar os muitos internautas que cá chegam através do Google do que propriamente para ser um reflexo de alguma vaidade, como muitos blogues o são.

Isto tudo para dizer que é com alguma tristeza que sinto que podia ajudar pessoas que estão (ou já o foram no passado) próximas de mim. Vejo que muitas pessoas se fecham em si. Para mim, fechar-me na concha, foi um sofrimento atroz. Mas tenho que me recordar constantemente de que as pessoas são diferentes. Que não têm partilhar nada da sua vida comigo, seja infertilidade, gravidez, seja o que for. Acredito que as amizades vivem da partilha. Quando esta não existe, fico com o coração mirrado, particularmente quando as pessoas me são queridas.

Mas tenho que me lembrar que só se ajuda quem quer ser ajudado. E só se consegue ser amigo de quem quer ser nosso amigo também.

DPP

Durante a gravidez, fala-se muito da DPP, a data prevista do parto. Mas fala-se pouco da DPP que pode surgir a seguir: a depressão pós-parto. Não me sei auto-diagnosticar e não fui a um especialista para fazê-lo. Mas sei que passei um mau bocado durante algum tempo. Para além de parecer que tinha sido atropelada por um camião TIR de emoções, o cansaço resultante da privação de sono não estava a ajudar.

O sentimento de culpa por não estar a ser uma boa mãe era avassalador. Para além disso, sentia uma culpa enorme por ter desejado tanto um filho e não estar a saborear convenientemente tudo o que estava a acontecer. Tinha sonhado tanto com esse momento e sentia-me tão mal porque queria voltar ao passado. Sentia saudades da liberdade que tinha… de poder decidir livremente quando dormir (mais de 2 horas) ou quando tomar banho (em mais de 2 minutos) e tudo isto sem ouvir um choro de bebé a ecoar na minha cabeça. Sentia-me culpada porque eu não estava a conseguir ser feliz. E haveria tanta gente que daria tudo para ter um filho e eu, no mínimo, estava a demonstrar uma ingratidão infinita pela bênção que me havia sido dada.

Não estava arrependida de ter tido um filho. Simplesmente, não sabia que ser mãe não era só morrer de amor pelo meu bebé fofinho cutxi cutxi. Poderia dizer que com a tempo tudo se foi ajustando. Mas não foi o tempo que foi fundamental. Ou melhor, se calhar até foi… mas o tempo que eu consegui dormir de seguida é que foi fundamental!

Não existem situações perfeitas. Quem não consegue ter um filho dificilmente compreenderá quem se lamenta das dificuldades de criar um. Eu não compreendia. E, quando passei por elas, senti que não tinha o direito de me queixar, fosse a quem fosse. Nada mais errado. Não há nada de mal em procurar ajuda. Há momentos complicados, mas que com perseverança se ultrapassam. E a culpa… bem, essa não é mais do que uma empata-mães.

Com tantos orfãos por aí…

Ler isto fez-me recuar ao passado.  Não que tenha ouvido isso muitas vezes, mas passei por uma situação caricata. Alguém que conheci no meio online lembrou-se de colocar no facebook um cartoon de um casal a proteger os seus embriões enquanto havia tantos orfãos na miséria. Essa pessoa conhecia a minha história e sabia que estava prestes a iniciar o primeiro tratamento de infertilidade (ICSI). Mas, mais importante do que os sentimentos de alguém, era o debate que estava a acontecer nos EUA, pelo que me explicou ela. Cá ninguém andava a debater nada relacionado com criopreservação de embriões, mas ela achou que o cartoon era pertinente. Talvez quisesse lançar algum debate intelectual, não sei.

Aquilo custou-me. Dei resposta, não me lembro bem qual. Nestas coisas, responde-se com coerência, coração e alguma estupidez natural.

A adopção era o meu plano B. Mas podia não ter sido. É uma decisão tão pessoal que não deve ser tratada como uma conversa de café. Adoptar não tem que ser a solução de recurso para os casais com problemas de fertilidade, sugerido por alguém que não faz a menor ideia do que uma e outra coisa acarretam. E se há tantas crianças abandonadas, todos deveríamos começar por adoptar antes de tentarmos ter filhos biológicos. Adoptar é um acto altruísta e de amor. Não é uma obrigação ou solução gira para quem não consegue conceber um filho.

Ajustar a rota

Quando comecei este blogue o objectivo era falar sobre infertilidade, contando a nossa história. Pensei que seria o espaço ideal para falar sobre gravidez e também sobre parentalidade. Mas a verdade é que foi ficando parado… não vejo sentido em escrever sobre o Ervilhito neste momento, neste espaço.

Como tal, irei continuar a falar apenas sobre infertilidade. Partilhar histórias, momentos, aquilo que fizer sentido. A vocês que estão aí desse lado, se quiserem contar a vossa história, estamos à distância de um clique. :-)

Primavera

Senti-me muito sozinha no auge dos meus problemas com a infertilidade. Procurei consolo nos fóruns, expondo o meu problema, tentando ajudar os outros, desabafei muitas vezes aquilo que não conseguia dizer em voz alta. Fui conhecendo algumas histórias e ganhando afinidade com alguns nicks. Foi assim que conheci a Primavera.

O nosso percurso tinha algumas coisas em comum. Enviei-lhe algumas mensagens em privado e, um pouco a medo, enviei-lhe o meu endereço de email. Começámos a conversar quase todos os dias, falávamos sobre a infertilidade, mas também sobre a vida, a que passou, a que estava por vir. E ficámos muito íntimas. Ambas gostamos de reflectir e de escrever, os nossos e-mails quase dariam para escrever uma novela bem longa.

A minha gravidez chegou primeiro, a notícia da sua chegou no dia a seguir ao nascimento do Ervilhito. Os meses que se seguiram foram muito complicados tanto para ela como para mim. Tanto que tínhamos sonhado com a gravidez, um filho… e tudo parecia um pesadelo. Discussões, injustiças, acabámos por romper.

Continuava a encontrá-la no fórum, no seu blogue, nos blogues que ambas líamos, no facebook via as fotos do filho que nasceu entretanto. E sentia que me faltava uma peça, mas nunca consegui dar o passo com receio da rejeição. Até que ela o deu e estamos a recuperar o tempo perdido. Ainda há uns tempos sentíamos a angústia de nunca virmos a ser mães, agora estávamos ali as duas, a lanchar, com os nossos filhos ao colo.

Este post já estava na calha porque nos encontrámos há dias. Mas ao conhecer isto, veio ainda mais a propósito. 

41

Não sei quantos anos passaram. 10, talvez? A minha melhor amiga, aquela de infância, que conheceu todos os namorados, todas as dúvidas, inseguranças, a que me conhece melhor que a mim mesma… falava-me em gravidez. Estava eu a anos luz de pensar em engravidar e já ela era acompanhada por ter alguns problemas. Acho que lhe disse muitas vezes “ainda és nova, aproveita a vida!” ou “tenta não pensar nisso, há-de acontecer!”.

Na infertilidade é difícil acreditar que “tudo acontece no tempo certo”. Não sei se este é o tempo certo, mas sei que esta é a forma certa. Porque ela merece o melhor.

O meu sobrinho está quase a chegar. E eu já não tenho mais unhas para roer! :-)